• João Rabello

Na sua hora

Ele gira a chave e abre a porta após um longo dia no escritório. Imediatamente, a mulher sai da cozinha, o avental impecável, a maquiagem intocada e diz:


- Que bom que você chegou, meu amor. O jantar está quase saindo.


Maleta na cadeira, sapatos no canto, o homem afunda no sofá e suspira.


- Hoje fiz aquele frango ensopado que você adora – diz a mulher antes de voltar para o fogão.


O homem agradece secamente, aperta os olhos com uma das mãos e depois repara a mesa posta. A mulher então volta a sala carregando uma caçarola, coloca no centro da mesa e diz sorridente:


- Pode vir, meu amor. Quer que eu pegue um copo d’água para você?


O homem afrouxa a gravata e diz que sim. Senta-se à mesa e começa a comer o prato já servido. Após um breve silêncio, comenta:


- Hoje tem jogo. Será que você consegue? As cervejas já estão na geladeira.

- Aquele de 21h45? – ela pergunta sem o mesmo sorriso.

- Isso mesmo.

- Muito tarde – lamenta sem preocupação.

- Nem com outro acerto?

- Hoje de manhã já preparei umas crianças pra escola, no almoço servi o seu vizinho aqui do primeiro andar. Estou cansada.

- Tudo bem, a demanda sempre foi alta assim?

- Nunca vi nada igual, tem homem que não consegue sair do século passado... sem querer ofender.

- Sem problemas, estou indo aos poucos. Ontem mesmo eu coloquei a mesa e me servi.

- Você não é dos piores. Aliás, essa comida pronta que você anda comprando é bem devagar, o seu vizinho aqui do prédio já deixa uma comida melhorzinha.

- Não dá pra mim, depois de velho não vou aprender a cozinhar... Próxima quarta de novo?

- Combinado.

- O jogo é mais cedo, viu?

- Na sua hora, é você quem manda.

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