• João Rabello

Terça-Feira

A mecanicidade fria com que os pés se alternavam não escondia o peso inadequado sobre os ombros. Este homem caminhava por uma calçada que lhe parecia estranha, mesmo a tendo percorrido inúmeras vezes ao longo dos últimos anos. Seu olhar direcionado invariavelmente para baixo, como se quisesse proteger-se do mundo, discursava um pouco mais sobre este peso, ainda que para uma plateia ausente. O homem caminhava só. Talvez não devesse dizer invariavelmente, pois o homem ainda olhou para cima algumas poucas vezes, apenas para recolher seu olhar, humilhado por não conseguir enfrentar a imposição daquele imenso céu azul. Chegou a pensar que o sol poderia se abster por um dia, numa forma de respeitar aqueles, que como ele, esperam que seus pensamentos se percam em calçadas mais escuras.


Um portão de ferro é aberto, os passos o direcionam para a entrada de um prédio. O homem não percebe o privilégio de subir o elevador sem companhia. Abre a porta de seu apartamento, entra. A chave já está num cinzeiro sobre a mesa quando os passos, agora descalços, o levam a um quarto escuro. Deita sob os lençóis, olha para cima. O quarto seria absolutamente escuro não fossem as inevitáveis frestas permitindo que raios de luz desafiem a escuridão. Pode-se dizer, no entanto, que o quarto é escuro. Seus olhos se fecham, a insistência das pequenas frestas é agora indiferente. Deitado no escuro, sob os lençóis, o homem sente-se menos dolorido. É como se pudesse partilhar com a cama o peso que carrega sobre os ombros.


·

Os passos mecânicos são interrompidos, ele observa uma sequência de carros surgindo em velocidade considerável. Ao fundo, percebe um ônibus, projeta um pé em direção à rua, chega a pousá-lo no asfalto quando seus olhos, mais abertos do que o usual, piscam três vezes quando normalmente piscariam apenas uma. O ônibus está mais próximo, veloz, o pé está pousado no asfalto aguardando o outro se decidir. O segundo pé segue o primeiro e ambos agora estão clandestinamente no asfalto, território dos imensos blocos de metal. O ônibus está cada vez mais próximo, o homem prevê o tempo de chegada e lança mais um passo em direção ao meio da pista. O ônibus passa, inocente. O homem correu para a calçada no último momento.


Em pouco tempo, o olhar do homem volta para o início da rua, desta vez ele está decidido a não vacilar. O primeiro par de passos é fácil, outro passo se segue impulsivamente. O homem está no meio da rua, olhando para o ponto de onde surgem os blocos de metais. Não pretende sair deste ponto. Não sairá deste ponto. Ainda não surgiram carros ao fundo e o homem não percebe uma gota de suor escorrer pelo rosto e tocar o asfalto. Sua respiração ofegante não perde intensidade nestes inesperados segundos a mais trazidos pela improvável e momentânea ausência de veículos.


Na esquina, então, algo aparece. Não é feito de metal, é um pedaço de tecido, que envolve uma perna, logo acompanhada de um corpo que se move com confiança, um terno branco serve de moldura para um homem magro, alto e idoso, movimentando-se graciosamente pela rua vazia. Em poucos instantes, outras pessoas surgem na mesma esquina, fazendo movimentos que, apesar de independentes, relacionam-se de alguma maneira. Uma mulher roda sua saia que reflete intensamente a luz do sol. Na cintura, segura uma bandeira que balança obedecendo o movimento dos seus passos. As pessoas agora são mais do que duas dezenas e este número não para de aumentar, todas descendo a rua em passos calibrados por instrumentos que acabaram de dobrar a esquina. O bloco está a poucos metros do homem, cujo coração já não está mais acelerado. Uma rápida reverência feita com seu chapéu de palha e o senhor de terno branco passa ao lado do homem, que não se manifesta. Em poucos segundos é a vez dos outros, um homem de meia-idade vestindo uma roupa que expunha sua barriga arredondada, uma moça bem jovem com óculos de aros amarelos jogando minúsculos pedaços de papel para o alto, uma mulher sorrindo orgulhosamente para a criança em seu colo, que olhava o homem com uma curiosidade que faltava a todos os outros presentes.


Muitos outros tipos passaram formando um conjunto diverso, porém sólido. Não se podia imaginá-los separadamente. O homem no centro da pista era o único de costas para o sentido do conjunto e não se incomodou com os impactos de grande volume provocados pelos instrumentos tocados por alguns integrantes. Em poucos minutos, não percebidos, o último integrante passa ao lado do homem, que agora observa apenas a rua à sua frente cheia de confetes coloridos no chão. O homem permaneceu parado no meio do asfalto agora por incontáveis minutos, quando percebeu que um ônibus surgiu no final da rua. Olhou fixamente para frente do veículo e percebeu o pouco tempo que conseguiria permanecer naquele ponto que já habitava há algum tempo. Com uma estranha calma, deu três passos em direção à calçada e seguiu para o seu prédio. Entrou em seu apartamento. Sujou sua cama de confetes e adormeceu levemente, como há muito tempo não fazia.

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