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  • Foto do escritorJoão Rabello

Ou algo assim

Faz tempo, confesso, mas o relato vale a pena. Adianto também que todas as informações a seguir são verdadeiras e correspondem fielmente à sequência objetiva dos fatos narrados.


Estava almoçando num restaurante do Leblon, à rua Dias Ferreira. Duas meses ao meu lado, um cliente compartilhava do mesmo serviço prestado pelo estabelecimento. O sujeito é um dos homens mais ricos do Brasil, com uma fortuna pessoal na casa dos bilhões de reais. O mesmo garçom nos atendia, a água mineral servida saída de pequenas garrafas de vidro idênticas, o brócolis colhido na mesma horta estava em nossos pratos. Eu observava aquela cena prestes a tirar conclusões animadoras, quando um senhor de meia-idade, cabelos esvoaçantes e barba longa adentrou o recinto. Suas roupas escuras eram pesadas, um sobretudo absolutamente ingrato sob o forte calor do Rio de Janeiro, carregava um relógio de bolso preso a uma corrente, passou velozmente entre as mesas e estranhei que ninguém parecia se incomodar com a invasão. O senhor sentou-se ao meu lado, logo eu, e olhou dentro dos meus olhos.


- Olha aqui rapaz, eu sei o que você está pensando.


Neste momento, a porta da cozinha entreabriu e eu vi o garçom que me atendia bebendo água num copo de plástico, diante de um filtro de parede, quando o senhor barbudo falou sem cerimônias:


- Eu vim de muito longe para lhe dizer algo muito importante, não se esqueça das palavras que vou manifestar.


Eu olhava em volta para saber se alguém notava o que se passava, mas todos estavam entretidos com suas conversas. O senhor continuou:


- Você, meu camarada, tem que ter consciência de classe! – levantou o dedo em riste.


- Eu?


- Estás iludido com a ideia de que você e o seu vizinho pertencem a mesma classe. Você, meu jovem ignorante, pertence ao universo deste companheiro que está servindo a sua bebida neste momento.


O garçom trouxe mais uma água mineral gelada e aportou o líquido no copo com maestria.


- Para você estar na mesma classe social do seu vizinho de mesa, você precisaria enriquecer 4,8 bilhões de reais, o que nunca, repito, jamais irá acontecer. Para você ter o mesmo patrimônio do prezado senhor que lhe serve, basta perder seu apartamento, o carro e essa reserva de emergência insignificante. E isso acontece todos os dias.


- Mas eu nem estava pensando nisso.


- Não carregue a ilusão de que você e o seu vizinho estão no mesmo barco. Você está numa canoa de compensado, talvez furada, remando com a mão e do outro lado, com os dois braços na água, está este senhor que agora lhe traz um cafezinho.


O garçom coloca um biscoito amanteigado no pequeno pires de café.


- O seu vizinho está num iate – completou o senhor - com um heliponto, pronto para zarpar voo no sinal mais breve de tempestade.


O garçom então trouxe a conta sem que eu tivesse pedido. O meu vizinho afortunado comentou timidamente, apontando o engano:


- Essa conta é minha.


O senhor levantou-se da mesa, levando consigo o relógio, que marcava dez para sete, ou algo assim. Enquanto andava em direção à saída, bradou:


- Não se esqueça, rapaz! – e saiu.


Atônito, percebi que quase ninguém reagiu ao ocorrido. Não fossem dois homens sentados junto à porta, que vim a saber se tratarem de um professor de história e um jornalista. Eles se entreolharam e comentaram:


- Aquele não era o...


- Sim, era.


- Ele não publicou o...


- Sim, publicou.

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