• João Rabello

O filósofo e a espada

Atualizado: 25 de ago. de 2020

Eu tinha o hábito de andar pelo Rio de Janeiro como quem anda numa pequena vila no interior da Suíça. Apreciando o silêncio de uma noite fresca, eu flanava alheio aos índices de violência. Certo dia, o inevitável aconteceu: fui roubado. O sujeito me abordou, mostrou uma arma e anunciou o assalto. O objeto foi então guardado numa bolsa e a cena passou a ser composta por dois cidadãos de mãos vazias. Um demandando o celular e o dinheiro do outro, com calma e sem que qualquer arma estivesse à vista. Um assalto civilizado.


Guardar o objeto que caracteriza a ameaça não me pareceu lá muito profissional, mas não importa, a disposição de quebrar o contrato social já bastava para mim.

Eu me considero um homem da razão. Se o sujeito não tivesse mostrado nenhuma arma e apenas exigido meu celular e dinheiro mediante a hipótese de agressão, eu já teria concedido meus pertences. No meu caso, o embate físico não compensa um celular e o dinheiro na carteira. Passei os últimos 25 anos aprimorando uma atividade que requer a plena destreza das mãos, não as treinei para sair dando socos e aquela não parecia a melhor ocasião para começar.

As arenas onde ocorrem embates de ideias e um ringue de boxe são ambientes distintos, mas não foi sempre assim. Conta a história que René Descartes caminhava pelas ruas de Paris na companhia de uma senhorita quando foi desafiado por um pretendente rival. Na Paris do século 17, duelos tomavam as ruas como o faziam os turistas antes da pandemia. Descartes então puxou sua espada e aceitou o desafio de proteger sua honra. Após desarmar o rival, o filósofo e matemático devolveu a espada ao homem e disse: “Você deve sua vida a esta senhorita por quem acabei de arriscar a minha”.


Além de ser um dos fundadores da filosofia moderna e escrever tratados sobre matemática e astronomia, o autor do “Discurso sobre o método” também encontrava tempo para praticar a esgrima e improvisava uns versos poéticos em situações de estresse. Um homem cujo nome é a origem do termo “cartesiano”, mas que poderia recorrer à espada se necessário.


Contudo, há um outro lado. Em 1633, Descartes pretendia lançar uma teoria revolucionária sobre a mecânica do sistema solar. Depois da condenação, no mesmo ano, de Galileu Galilei por defender que a Terra girava em torno do sol, Descartes achou prudente guardar a tese na gaveta. Naquela época, era mais seguro andar pelas ruas de Paris do que publicar o que se pensava.


Cada tempo oferece seus próprios desafios às pessoas de razão, mas lá no fundo, carrego a fantasia de ter puxado uma espada e dito “você deve a sua vida ao Estado Democrático de Direito por quem acabei de arriscar a minha”.


Ao menos tenho a liberdade de escrever essas palavras.

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